O Folhetim

Terça-feira , 27 de Maio de 2008

Esse blog mudou de endereço. Viajou, pegou um trem:

http://www.otremdedoido.blogspot.com

 


Escrito por Pablo Alcântara às 14h49
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Sábado , 12 de Abril de 2008

O Bafo

A conivência das pessoas quando alguém está com bafo é tocante. Elas resistem, aspiram menos oxigênio e continuam perto do locutor mal-cheiroso. Entre um locutor e um receptor não existe apenas palavras, sons, gestos. Existe bafo. Eu esqueço de muitas palavras e de temas inteiros de uma conversa, mas eu consigo abrir os arquivos da memória e tirar de lá o odor de um bafo. Eles parecem ficar guardados dentro de vidros, como aqueles de compota de goiaba. Basta eu lembrar da ocasião e do rosto de quem vociferou odores. Consigo lembrar a classificação de cada bafo. Há aqueles bem podres. Caso médico. Só pode ser gengivite, problema estomacal. A compaixão é até maior. Há os bafos de bebida. Geralmente, esses são acompanhados de lembranças desagradáveis. Como a de um bêbado falando bem dentro do seu ouvido: 'te conheço desde pequeno... sou amigão do seu pai, ó... amigão... he,he'. E tome bafo. Existe o bafo plus. Esse vem acompanhado de cecê. A catinga se mistura, é um bafo híbrido. Parecido com esse existe outro bafo híbrido. Esse minha esposa catalogou. Segundo ela, é o bafo misturado com desodorante masculino. Perfume tipo Axe. Dia desses fomos em uma academia pra saber preço de matrícula, mensalidade. Um instrutor nos convidou para um tour pelo recinto. Se malhação me deixar com aquele bafo, prefiro o sedentarismo. Ele tinha o híbrido bafo-desodorante. Nauseante. Eu confesso que às vezes fico com bafo causado pela ingestão exagerada de cebola. É como ocorre na vida: sempre tem o lado ruim de uma coisa boa. Em outras ocasiões já tive o bafo-cansaço. É aquele que você passa muito tempo sem comer e beber nada, e ainda tem de falar muito. É o bafo-trabalhador. Algumas pessoas tem o bafo tão marcante que quando vão embora deixam o espectro pra trás. Infestam o ambiente. O bafo é pior é que o peido. O peido se esvai. Dura um tempo breve após a eclosão. O bafo sai por aí. Acompanha o dono por onde vai. Não tenho neuras, mas já fiquei algumas vezes cabreiro quando alguém do nada me oferecia uma bala daquelas geladas, fortes. Ali no canto, eu com a mão em concha conferia meu assopro. Mas tudo bem. Pra terminar, eu não posso me esquecer de um tipo de bafo muito cruel e que pode conferir a um diálogo um cheiro que não lhe pertence. Esse bafo não é produzido ali, mas foi. É o telefone-bafo. A mufunha fica impregnada no aparelho e não adianta oferecer balinha. Imaginem se as pessoas fossem sinceras? "Humm, cê tá com bafo, viu". Não, acho improvável. Mas pode ser diferente. Eu imagino as pessoas oferecendo um bom-bafo como oferecem uma saudação. "Tudo bem? Bom bafo, tchau!". 


Escrito por Pablo Alcântara às 13h00
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Quinta-feira , 10 de Abril de 2008

Trânsito

O Folhetim ainda quer manter distância de algumas palavras como 'objetivo', 'desempenho', 'dinamismo e a famigerada 'pró-atividade'.
Mas deitado em sua banheira de letargia, sem nunca ser pusilânime, esse sítio inaugura uma nova seção: Frases. Original, né?

Isso não quer dizer que as atualizações serão freqüentes e regulares.

Folhetim apresenta - Frases

Trânsito é igual banheiro público, qualquer hora um faz uma merda.


Escrito por Pablo Alcântara às 15h11
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Quinta-feira , 03 de Abril de 2008

Big Bang

Não é a terra. Nem mesmo o sol. O centro do universo é outra estrela, chamada Marina. Acredito no marinocentrismo. Tudo no meu universo gira em torno dela. Hoje, dia 3 de abril, é o dia do nosso Big Bang. Ano a ano, um universo em expansão. Cada vez mais linda. E assim vamos ao infinito. 


Escrito por Pablo Alcântara às 15h28
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Quinta-feira , 06 de Março de 2008

É tudo pose?

Dia desses assistindo à MTV vi um vj perguntando ao Arnaldo Antunes se ele conhecia uma menina chamada Malu Magalhães, que estava no "olho do hype" e que fazia um som "folk". Eu pensei “poxa, uma menina, olha só”. Aí entrou um VT sobre a garota. Pra mim, uma garota normal, cantando músicas normais que um adolescente qualquer que ganha um violão aprende. Depois de um tempo, o adolescente começa a arriscar e faz uma musiquinhas. Isso rola nos lares de Araguari a Nova Iorque desde os tempos do ronca. Pra mim, não é novo. Não vai mudar o mundo. O fato é que ela fez uma pagina no MySpace e “bombou”, “hypou”.

Em outra hora, me aparece uma vj nova, uma garota de cabelos vermelhos, e fico sabendo que ela ficou conhecida e também 'hypou' colocando fotos pessoais na internet, fazendo poses e colocando roupas fashion. Em seu programa da MTV, a garota de cabelos vermelhos entrevistava uma loira com um nome que parecia com algo como “lala grash”, “lala green”, não me lembro. A loira foi apresentada como uma artista plástica. Mas também era modelo, hosstes (se escreve assim?) e dj. No meio da conversa, ela dizia com naturalidade que não pintava nada há cinco anos.

Eu não quero generalizar nada, mas isso tudo é um panorama que me incomoda. Bem, no primeiro caso, vai ficando cada vez mais nítido o fato de que as pessoas perderam a noção do que é realmente bom mesmo e do que é só normal. Isso na minha terra – e na sua também - se chama mediocrização. O segundo caso é um complemento do primeiro. Hoje, as pessoas não são algo, elas são algumas coisas. Fazem de tudo. Acham que fazem de tudo. E qualquer coisa é boa. Dj, escritor, modelo, ator, cantor, músico, artista plástico, BBB e ainda sobra tempo de ser apresentador de programa de TV. A técnica acabou. A crítica, então, não serve pra nada, porque as pessoas não se importam mais com a crítica.

Antes, o 'faça você mesmo' era uma alternativa. Uma saída para quem não conseguia se estabelecer no “establishment”. Em muitos casos, o que era feito nesse submundo mudava o mundo. Agora, a alternativa ficou maçante. Os periféricos estão virando o centrão. Parece que nada mais vai mudar o mundo. No fundo não há surpresas. Romper com parâmetros. Em alguns casos, o retrógrado refigurado é o novo. Não existe mais conteúdo. O valor intrínseco, talhado pela técnica e inspiração foram subjugados pela imagem, o design, a estampa. Você está sendo filmado e, principalmente, se filma, fotografa. Durante o tempo todo o sujeito se olha de fora na lente de LCD. Não olha pra dentro. E fica vazio. A criação é de fora pra fora. É tudo pose.


Escrito por Pablo Alcântara às 14h59
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Sexta-feira , 01 de Fevereiro de 2008

Creme rejuvenescedor 'Jungle Action'

O pessoal todo da imprensa brasileira tem de voltar pras cadeiras da faculdade. O Beto Carrero morreu. Eu não tinha nada contra ele. Inclusive sua figura me remete ao tempo dos Trapalhões na tv aos domingos. O programa era a última coisa legal do fim de semana. Logo na manhã do outro dia tinha escola e o clima todo ficava pesado e deprimente quando eu ouvia a música do Fantástico. Mas ele morreu e a notícia mesmo não é essa. O Beto Carrero morreu aos 70 anos. Ele tinha 70 anos, minha gente. Não parecia. Ele tinha cara de 50. A notícia deveria dizer algo como: "A morte de Beto Carrero surpreendeu pela idade do empresário: 70 anos".

Não me parecia também que ele era um face esticada feito a Ana Maria Braga. Ela não deve nem conseguir bocejar mais. O Beto Carrero não, tava sempre com um sorrisão, pinta de herói tipo T-Rex. O pior é que as pessoas começam a divagar sobre os motivos da mocidade do sujeito. Já ouvi teorias de que ele tinha muito dinheiro e quem tem muito dinheiro pode fazer tratamentos vários pra manter a derme, epiderme e até a endoderme firmes. Mas refuto. O tratamento já teria chegado aos outros milionários. O que seria então?    

A minha tese falta embasamento científico, análise de amostras e de substâncias. Mas algo me diz fortemente que a saliva de tigres e outros felinos combinada com lambidas de macacos proporcionavam à pele de Beto Carrero a rigidez que tanto lhe causava um aspecto rejuvenescido. Em fotos e vídeos ele sempre aparecia ao lado desses animais. Sorrindo e levando lambidas. Agora provar isso é trabalho pros cientistas. Apenas levanto uma hipótese e não tenho dúvida de que várias descobertas da humanidade nasceram de divagações absurdas. Quem sabe teremos em pouco tempo um creme feito de saliva de tigres, onças e macacos. O apelo comercial ajudaria a preservar essas espécies e ainda faria a felicidade de muitos homo-sapiens temerosos da verdade dos anos. Tudo pela natureza.


Escrito por Pablo Alcântara às 16h23
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Terça-feira , 22 de Janeiro de 2008

Elucubrações do Seu Totonho, um aposentado

"Às vezes eu fico olhando o povo passar correndo. Todo dia no comecinho da tarde passeio aqui no bairro. Isso é pouco depois do sono depois do almoço. Tem uma pracinha aqui perto, uns cinco quarteirões da minha casa e quando eu estou mais animado vou até lá. É perfeito, sabe? É mais longe, mas quando eu chego lá, posso sentar e descansar. Fico vendo a andança do povo. E o povo anda rápido viu. A praça fica em um canto da cidade que começa o movimento. Meu bairro é quieto, tranqüilo, e essa praça fica na beirada, na divisa com as ruas mais cheias de carro e gente. Eu fico imaginando o que cada um que passa está indo fazer. Eles estão indo é pro Centro, a maioria. São os afazeres de cada um. Tem o rapaz recém-casado que agora trabalha dobrado, tem a mulher que saiu de um emprego e já está indo para a casa da outra patroa arrumar tudo, tem também aquela mulher mais velha que está indo acertar umas coisas no banco, umas coisas que ela não entende direito, não tinha antes, e está preocupada só por isso. Tem uma época antes da velhice pura que a gente tem vergonha de não saber as coisas, de perguntar. É uma época que nós ainda não somos velhos, é um quase velho. Pra mim, é pior que ser velho tal qual eu sou agora. Todo mundo entende se eu não sei pegar o café da máquina. Veja que esses dias isto me aconteceu. Tem que enfiar moeda, pegar copo de plástico em um compartimento pregado na parede, uns botões. Eu não tinha nem idéia. Mas eu aprendo, antes, peço ajuda. Sorrio, eles sorriem pra mim. Agradeço. Eles gostam. Da próxima vez já faço sozinho. Se não fizer, também não é vergonha. Eu sou velho mesmo. Mas quando nós estamos naquela idade antes do parar de vez, não saber fazer as coisas novas e modernas é vergonha. Porque aí vão dizer: ficou velho. A gente não quer ficar velho. Ser idoso não é ruim, ruim é o ficar. E olha só esse povo correndo pra encontrar os anos lá na frente." 


Escrito por Pablo Alcântara às 15h07
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Sexta-feira , 11 de Janeiro de 2008

A queda

A mesa do computador, a cadeira, a tela, eu. Eu, esse amontoado de pela branca, de ossos, carne e algum tecido adiposo. Esse amontoado emoldurado (que tenta fazer aliterações e faz rima) em uma estrutura de 1,85 de comprimento. Quase um trambolho. As duas pernas, os joelhos e o pé, servem para nos manter na vertical. Às vezes falham, como hoje. Levei um tombaço. Caí de maduro, de bunda.

A mesa do computador, a cadeira, a tela, eu. Eu, absorto em uma leitura, não encarava mais a tela. Estava de lado. Lia uma revista sobre tecnologia, computação, softwares. Desligado do mundo, quase babando. Concentração voltada para a leitura. De repente meu gerenciador de tarefas mental dispõe 2% de uso do CPU para um som. 5% de uso do CPU e já identifico a perturbação causada pelo som. 6% e já noto que um telefone na mesa atrás de mim não pára de tocar. 10% de CPU usado pra identificar esse som e atrapalhar a leitura. Chega! Resolvo atender.

A mesa do computador, a cadeira, a tela, eles. Eles, colegas de trabalho, provavelmente não em trabalho. Era hora de almoço. Momento de ler os emails, verificar os anexos, rir das piadas, ler notícias sobre a Britney Spears em mais um surto ou conversar no MSN. Atividade interrompida. Eles se surpreendem. Mas o que é aquilo?!

A mesa do computador, a cadeira, a tela, eles. Eles entregues às suas tarefas. Um som. Um estrondo sem definição. Um barulho identificado pela visão. Um sujeito caído no chão. Sentado de bunda. Em uma posição que normalmente ninguém fica. Ninguém do nada estatela no chão e fica lá. Ele caiu. Caiu de maduro.

Levanto. Atendo ao telefone ininterrupto. Converso sem saber direito o que falava. Alguém perguntando por outra pessoa. Digo que não está. Posso anotar o recado. Sou levemente educado, até.

Desligo. Escuto cometários. "Isso é que dá em beber e vir trabalhar". "Achou o que tava procurando?" "hahaha".

Quando você cai não sabe se ri, sente dor, levanta rápido ou fica deitado. Dessa vez levantei rápido. Mas poderia ter ficado lá, me esticar no chão e rir do desatino, do destino (aliterações). Engraçado eu sempre acho. Eu não costumo rir quando as pessoas caem na minha frente. Só quando eu caio.

A mesa do computador, a cadeira, a tela, eu. Eu volto sorrindo e sento. Termino de ler a revista como se alguma coisa tivesse acontecido. Mal termino. No fundo acho mesmo engraçado. Lembro da cena e caio, dessa vez, em uma risada muda. Mas sei também que se não tivesse soltado o corpo teria torcido o joelho esquerdo de novo. Sempre ele. Bichado. De alguma maneira aprendi a cair. A queda pra mim é o pressentimento da quebra. Da lesão. Enquanto eles voltam às suas tarefas, me lembro de um provérbio chinês, taoísta: o bêbado não se machuca porque ele não se opõe à queda.


Escrito por Pablo Alcântara às 07h50
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Quinta-feira , 03 de Janeiro de 2008

Perder é ganhar

Há mais de um mês eu jogo a mesma cartela na Lotofácil. Não ganhei nem um real. Eu adotei esse jogo porque ele dá a ilusão de que a gente ganha alguma coisa. Era costume eu ganhar 2 reais. Dinheiro que era reinvestido em outras duas cartelas. Dinheiro fruto da derrota. Perdia a bolada, mas ganhava um mísero trocado. Mas nesse último mês nem 11 pontos eu fiz. Tudo bem, às vezes as derrotas vem em série. Parece imbecil, mas é por isso mesmo que eu tenho jogado a mesma cartela. A teoria é o inverso de um dos ditados futebolísticos mais repetidos, aquele do "em time que está ganhando não se mexe". Eu não mexo justamente porque não ganho. Pense comigo. Se nenhum dos números escolhidos por mim é sorteado, é porque vai chegar o dia em que todos eles serão sorteados. Todos. Quinze dos quinze números que escolhi. Na minha lógica perturbada, quanto mais eu perco, mais aumentam minhas chances. Amanhã, quando eu conferir a jogatina pelo site da Caixa, dois sentimentos são possíveis: felicidade ou esperança. 

Eu até podia tentar forçar uma barra aqui e trocar um ou dois números. Especialistas em auto-ajuda e gurus pregam que é preciso arriscar. Até no cinema é assim. Já vi isso na Sessão da tarde. Há poucos minutos do fim do jogo, com o carimbo de "loser" pronto pra bater na testa, técnicos de beisebol, basquete ou futebol americano olham para o banco e sacam de lá o nerd, o magricela escurraçado. O sujeito em um lance de superação vai lá e faz o gol, o ponto, a cesta. É a glória, filha do ímpeto.

Eu gosto da tradição. A tradição, ela mesma que é vastamente esculhambada por críticos de arte. A aposta é o novo. O risco. Mas na maior parte das vezes, depois de algum tempo, quem sempre é lembrada é a arte tradicional. Seja ela música, pintura ou artes plásticas. Fazer sempre a mesma coisa. Como um monjolo a triturar a mandioca.   

Não dá. Nem consigo. Não vou arriscar outros números. Sou tradicionalista demais pra isso. Não arrisco. Fico com minhas coisas. Não mudo meu time no intervalo. Na gastronomia, repito os mesmos lugares. Nestes mesmos lugares repito os mesmos pratos, sucos, combinações e até o momento de ir ao banheiro é o mesmo. Sempre.

Posso até perder a chance de experimentar novidades. Mas na real, nesse caso, perder é ganhar.

Pronto. Consegui traçar um paralelo entre a teoria Lotofacilesca e a vida. Perder é ganhar. A idéia é mais cabível em termos existencialistas do que eu imaginava. Na loteria da existência adotar esse jogo dá a ilusão de que a gente ganha sempre alguma coisa. Vá lá, perder é ganhar, nem que sejam alguns trocados.


Escrito por Pablo Alcântara às 18h00
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Quinta-feira , 20 de Dezembro de 2007

Cores indefinidas

 

A mãe tinha um sofá sem cor definida. Não era azul, amarelo, verde ou vermelho. Não era branco, nem preto. Adjetivar ou nomear aquela cor fica por conta de quem quiser. Para mim, era uma cor indefinida. Roxo, lilás, vinho. Cada um canta no tom que pode. Enxerga o tom que quer. E ainda existem os daltônicos. Era uma cor usada em determinada época no final dos anos 60 e início dos 70. Chega. A cor aqui nem importa. Para ele não importava. O cheiro sim. A primeira vez foi com uma amiga da família. Ela era um salto grosso, quadrado. Vestido vermelho, blusas xadrezas. Ela era isso. E ela era um perfume forte e doce. Para as crianças as pessoas são representadas assim. As pessoas são coisas. Quando escuto relatos dos adultos, percebo que as pessoas da infância se tornaram borrões. Manchas. E sabemos que manchas não são facéis de serem apagadas. Às vezes nunca são apagadas. Ele não sabe ou não lembra o motivo. Quando a mulher salto grosso se levantou e foi embora, ele cheirou o sofá. Cheirou a parte onde ela havia sentado. Ele não sabe o motivo. Ele soltou o brinquedo no chão, se levantou e, antes ainda que a espuma, o recheio daquele couro sem cor inflasse de volta ao tamanho normal, cheirou. Ninguém viu. Não houve traumas.

Depois de todos os meus anos de estudo e de muitos relatos e histórias ouvidas, sei que não existem transtornos. Existem desejos. Realizar os desejos pode ser tudo o que sobra. A sobra que completa o mundo de muitos miseráveis. Desde pequenos escutam que é preciso ser feliz. Desejos diários cumpridos trazem uma boa dose de felicidade mesmo para os escrotos, sujos, maníacos e marginais de toda espécie. Mas realizar seus próprios desejos traz mais felicidade para os medíocres. Os comuns. Eles precisam disso mais do que qualquer um porque não se suportam. E vivemos em um mundo de mediocridade, não vivemos?   

Um dia ele precisou cheirar a cadeira da colega de trabalho. Seus dias foram assim, sua vida foi assim. A cadeira da professora, o sofá do sogro e seu cheiro de sabonete barato. Todos foram cheirados. Sem querer diminuir o ato, faço questão de explicar um detalhe. Apenas um detalhe entre os vários que compõem a telha de sutilezas, que tece uma mania tão singela - convenhamos, é singela - e singular. Cheirar carecia de ser ainda quente. Carecia da temperatura corporal do cheirado. Da brisa quente que permanece margeando em 3 a 4 centímetros de distância do assento. O calor fica ali por pouco tempo. Por isso, a ação tinha de ser rápida. Um golpe de Bruce Lee. Uma arma sacada de John Wayne. Uma fungada do nosso amigo. Rápidos e certeiros. Coisa de mamífero treinado. Mas registre! Rápido na movimentação, porém duradouro ao sorver. Quando enterrado de cabeça no banco, sofá, cadeira, quina de mesa ou qualquer outro lugar em que o desejo queria a fungada, a inalação deveria ser ato consumado. Sem interrupções. É como beber vinho. Quem sabe, não bebe, degusta. Ele degustava os cheiros corporais que as nádegas deixavam. Ele media a temperatura. Ele olhava as marcas deixadas. Olhava a aura que pairava. Ele via a alma daquele espectro. Ele sentia o passado ali. Ele o trazia de volta, o momento em que o indivíduo ficou sentado voltava. Ele brincava com o tempo. Ele era um expert. Um mestre. 

Um dia ele precisou cheirar a cadeira da colega de trabalho. Ninguém viu. Ele não sabia dizer se importava que os outros soubessem. Se envergonhava, era certo. Como todos os medíocres, também carrega a culpa por se permitir realizar o desejo. A culpa por buscar a felicidade que tanto falavam. Essa é basicamente a diferença entre eles e os miseráveis e escrotos, mendigos e bêbados perdidos. Os medíocres sentem culpa. Os outros se esbaldam com a condolência da falta de vergonha. São mais livres neste sentido. Para sujeitos como o nosso cheirador, com o passar dos anos, a realização do desejo é êxtase e auto-flagelação. Euforia e depressão. No dia em que cheirou a cadeira da colega de trabalho se sentiu bem, mas chegou em casa e se arrependeu, chorou e sentiu vergonah de ser quem ele era. Chegou a pensar se iria pro inferno. Quando ele cheirou a cadeira da colega de trabalho, sorveu o cheiro, mediu a temperatura, acariciou o tecido da cadeira com as bochechas, como às vezes fazia quando havia algo mais pela dona - sempre mulheres - da 'sentada'. Paixão, desejo, amor. Seja lá o que for. Esses sentimentos são como cores indefinidas.

Dr. Raul Bukowski, filósofo visceral e gastroenterologista. 


Escrito por Pablo Alcântara às 17h57
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Sexta-feira , 26 de Outubro de 2007

Soda no leite

Eu sou capaz de parar de comer carne, mas não de beber leite. Um dia vou dizer: “tá certo, vocês venceram, tragam os vegetais folhosos e as leguminosas”. Mas leite não dá pra parar. Caso de polícia: tão colocando soda, água oxigenada e deixando coliformes fecais no leite longa vida. Mas mesmo assim, amanhã de manhã eu vou beber um copo do branco do puro (puro?).

 

Leite é o primeiro alimento de todo mundo. Já pararam pra pensar nisso? É uma coisa séria. É tão vital como respirar. Tá certo que no início da nossa carreira de bezerro o leite deve ter gosto ruim. Mesmo assim a gente importuna as mães toda hora pra mamar. Essa inclusive é a primeira atitude revolucionária do ser humano. Em alguns casos, a única. O Che Guevara começou assim, lá na Argentina. Primeiro porque tomamos o seio materno dos pais. Depois, porque aprendemos a reclamar, a cobrar, a pedir e a gritar pelo que queremos.

 

O tempo passa e quando poderíamos perder o gosto pelo leite, descobrimos os achocolatados. Confesso que em grande parte da minha vida um dos maiores dilemas foi a preferência entre Toddy ou Nescau. Tive momentos “sabor que alimenta”, e outros “energia que dá gosto”. O mais engraçado é que solucionei a questão quando os dois passaram por crises de identidade. O Nescau ficou mais forte e com mais chocolate em uma versão lançada recentemente. O Toddy saiu do armário geral. Chocolate ao leite, banana, frutas vermelhas, fizeram tantas alterações e novos sabores que conseguiram me convencer que o original não era assim tão legal. Se fosse, então pra quê tantas experiências. Isso deve ter rendido muito investimento em propaganda, pesquisa de mercado e incentivos aos varejistas. Cagada de algum novo consultor mercadológico ou não, na dúvida, tinha coisa errada aí.

 

Durante os anos de dilema entre Toddy ou Nescau, algumas paixões avassaladoras surgiram, como o Brow Cow. Um chocolate líquido que a gente colocava no leite. Ovomaltine Tipo Suíço também era bom. Hoje compro o achocolatado do supermercado Extra.

 

No fundo, leite é um alimento de gente comum. Diria mais: é um alimento de bundão. Bundão no bom sentido, que quer dizer o sujeito tranqüilo, que não se arrisca em aventuras cheias de adrenalina. É aquele sujeito do filme de Faroeste que entra no bar e diz: “me dê um copo de leite”. Os malas do velho oeste debocham, esperneiam de contentamento. Não crêem que virilidade combine com leite. Bebida de bebê (desculpem a cacofonia). Essa idéia é justamente contrária a dos comerciais de achocolatado. Neles, quem bebe é como se fosse um Indiana Jones mirim. Que nada. Quem bebe leite fica em casa e assiste Sessão da Tarde.

 

Que nada. Quem bebe leite é tipo o Boça, do Hermes e Renato.

 

"um copo de leite com achololatado quente!"


Escrito por Pablo Alcântara às 15h18
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Segunda-feira , 22 de Outubro de 2007

O segredo de Minas

 

O segredo das Minas Gerais

É saber guardar um segredo

 

E só o conhece quem imagina,

Quem busca descobrir nos sonhos

O que existe além das montanhas.

 


Escrito por Pablo Alcântara às 14h34
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Terça-feira , 04 de Setembro de 2007

Vidas secas e narinas caconildas

 

Há muito tempo não chove. E o sol parece saber disso. Ele é como o general de um exército que toma o solo inimigo ao perceber que não há resistência. O sol tem pressa. Ele quer adiantar o nosso tempo de cozimento. Nessa época, eu noto que os seres humanóides apresentam o agravamento de um comportamento em suas vidas secas. A cena é comum no habitat urbano. O carro se aproxima. Mãos, pés e mente se preparam para a redução da velocidade e a parada no semáforo. Após a freada, o gesto. O dedo em riste invade a narina. Cavuca, rodeia, praticamente esperneia a procura da meleca, da caca. A ponta do dedo manobra como um skate em um half mucoso. Quando a escavadeira atinge o alvo, começa outra parte do processo. Em fricções rápidas os dedos modelam a bolinha de caca. Essa etapa costuma ser curta, a não ser que o artesão interrompa a execução para dar uma cheiradinha no produto. Terceira etapa: o lançamento. Com uma catapulta formada pelo dedo polegar e indicador, o motorista lança a bola pela janela do carro.

É incrível, nesse tempo seco a produção nasal dessa cera aumenta. É uma lógica capitalista, aumento da matéria-prima, cresce também a produção.

 

Alguns pontos que merecem considerações:

 

O que motiva esse comportamento?
O incrível é que o sujeito perde os escrúpulos. Invariavelmente alguém o vê socar o dedo no nariz, mas ele faz tudo rapidinho. É como um vício.

 

Quanto de meleca prensada existe nas esquinas das cidades brasileiras?
É muito, mas nada assustador. Nada que motivaria a criação de uma divisão da limpeza pública urbana responsável pela coleta diária ou semanal das placas de bolinhas prensadas no chão. Algo que poderia atrapalhar a tração dos veículos, e até mesmo causar acidentes.

È possível ter uma idéia da quantidade em uma estimativa rápida.
Cada bolinha de caca tem cerca de 2 milímetros.
Um metro de solo corresponde a 1000 milímetros.
Ou seja, se fôssemos enfileirar um metro de bolinhas de caca, precisaríamos de 500 unidades do artefato nasal humano.
Vamos supor, em um cruzamento movimentado, com circulação de 1500 veículos por dia, 500 motoristas arremessam bolinhas de caca. Isso daria apenas um metro de bolinhas enfileiradas.

Basta lembrar que cada um faz o que quiser. Só não me venha cumprimentar depois.     


Escrito por Pablo Alcântara às 10h03
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Quarta-feira , 15 de Agosto de 2007

Elucubrações do Seu Totonho, um aposentado

 

"Hoje existe muita senha no mundo. Eu mesmo que já tô longe da vida produtiva econômica do meu país sou um homem cercado de senhas. Pra tirar a minha aposentadoria no banco eu tenho senha. Meu neto instalou internet aqui em casa e eu descobri que pra usar ele tinha que colocar senha. Na minha própria casa. Aí, eu sempre uso os mesmos números ou palavras. Às vezes eles requerem uma senha maior, aí lá vou eu e com muito custo acrescento mais uns dígitos. É muita coisa pra memória, e se você se enganar com uma senha no banco, eles vão e cancelam sua conta. Minha filha usou um método arriscado. Ela tem gravadas todas as senhas no telefone celular dela. Eu não faço isso. Primeiro porque não sei usar celular e segundo porque odeio telefone. Hoje em dia tem criança com telçefone na mão. Mas me diz, pra que um moleque precisa disso? Na minha época o negócio era amarrar duas latinhas com um fio. Aí era divertido, nosso telefone de lata. Mas esses meninos devem ter coisa importante pra dizer. Ah, devem ter, imagino a importância: "ganhei um brinquedo novo!". Telefone eu tenho em casa porque eu sou velho e se tiver um piripaque tenho que ligar pra pedir ajuda. Só isso. Mas não me liga pra contar história não. Conversar a gente conversa olho no olho, que é melhor. E ainda podemos tomar um cafezinho e comer uma quitanda. Mas hoje o povo também não tem tempo de ir na casa dos outros. Tem coisa demais pra fazer, inclusive decorar senhas. Porque, olha, só sei que tudo é senha, tudo tem senha. Se eu tiver que falar uma senha pra entrar no céu, já tô no inferno."


Escrito por Pablo Alcântara às 10h52
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Sexta-feira , 24 de Fevereiro de 2006

De repente é aquela corrente pra frente (ode a burrice)

Eu bem que poderia escrever sobre o carnaval. Mas tenho alguns motivos contrários. Um deles é que ontem já tive de escrever sobre o evento no trabalho. Outra razão é a vontade de querer passar longe do carnaval, por isso, acelero, um abraço, tchau. Sem me distanciar muito, passo por uma vizinha, a copa do mundo. Ah, carnaval e seleção de futebol carregam o clichê mais detestável: "todos os brasileiros unidos...". Se clichê tivesse uma voz seria a do sujeito narrador das chamadas da rede Globo.
Uma das poucas coisas que aprendi na faculdade foi sobre determinismos e relativizações. E não foi com nenhuma professora padrão. A Selma era socióloga e costumava interromper a aula e chamar os seus alunos mais aplicados pra uma rodada de cerveja no meio da manhã. Com ela, eu, um bom aluno, aprendi que em se tratando de cultura é preciso separar o joio do trigo e, mesmo assim, não se consegue a pureza total. Por isso, não venha me incluir em clichês nacionalistas. Não venha bater mais forte meu coração quando a amarelinha entrar em campo. Não venha colocar meu bloco na rua sem a minha autorização. Faço parte do bloco dos que não tem bloco e juntos negamos a unanimidade. A unanimidade é burra, escreveu Nelson Rodrigues, certo? Mas ela não existe e sim o desejo, o plano, de tornar as coisas unânimes. Isso é pregar a burrice.
Um parênteses: no jogo entre a lógica e a sensatez contra a burrice e a incoerência, é mais fácil torcer pelo segundo time. Eu sou um sujeito cheio de dúvidas. Muitas. Minha cabeça ferve pensando nas possibilidades, nas consequências de ações mínimas que poderia tomar. Às vezes, também sou impulsivo, claro. É mais fácil. Não existem dois lados. Opções nem tempo. Não há certeza na razão, apenas na impulsividade. Fecha parênteses.
E eu me assusto quando a burrice entra em campo. Dia desses foi no Pacaembu, quando o Bono Vox do U2 disse a palavra Argentina no show da banda no Brasil, ouviu vaias. Um urro de seres acéfalos. Depois não querem ser chamados de macacos. Se não fosse pela lógica de que os dois países tem mais semelhanças do que diferenças, me espanta mais ainda a incoerência com a mensagem do cultuado vocalista irlandês, que durante todo o tempo, pregou/cantou igualdade - continuando a série originada pelo longa-metragem chamado John Lennon. Ele se espantou e eu me envergonhei - quer dizer, também guardo algum sinal de coletividade.
Nunca me deram uma boa razão para odiar os argentinos. Eu pessoalmente nunca convivi com um argentino. Nenhum deles nunca me fez mal. Ôpa, mas você vai me lembrar do futebol! Nele, somos rivais. Se for por isso então, a coletividade que me resta se envergonha mais ainda. Se o principal perrengue entre Brasil e Argentina se limita ao futebol, celebro aqui a rivalidade mais imbecil do mundo. Todas são. Mas vejam, a nossa ganha!
E entra a voz do narrador da rede Globo: "mais uma vez, os brasileiros unidos para manter a rivalidade mais imbecil do mundo". Dá-lhe Brasil.

Escrito por Pablo Alcântara às 09h30
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