O Folhetim

Sexta-feira , 24 de Fevereiro de 2006

De repente é aquela corrente pra frente (ode a burrice)

Eu bem que poderia escrever sobre o carnaval. Mas tenho alguns motivos contrários. Um deles é que ontem já tive de escrever sobre o evento no trabalho. Outra razão é a vontade de querer passar longe do carnaval, por isso, acelero, um abraço, tchau. Sem me distanciar muito, passo por uma vizinha, a copa do mundo. Ah, carnaval e seleção de futebol carregam o clichê mais detestável: "todos os brasileiros unidos...". Se clichê tivesse uma voz seria a do sujeito narrador das chamadas da rede Globo.
Uma das poucas coisas que aprendi na faculdade foi sobre determinismos e relativizações. E não foi com nenhuma professora padrão. A Selma era socióloga e costumava interromper a aula e chamar os seus alunos mais aplicados pra uma rodada de cerveja no meio da manhã. Com ela, eu, um bom aluno, aprendi que em se tratando de cultura é preciso separar o joio do trigo e, mesmo assim, não se consegue a pureza total. Por isso, não venha me incluir em clichês nacionalistas. Não venha bater mais forte meu coração quando a amarelinha entrar em campo. Não venha colocar meu bloco na rua sem a minha autorização. Faço parte do bloco dos que não tem bloco e juntos negamos a unanimidade. A unanimidade é burra, escreveu Nelson Rodrigues, certo? Mas ela não existe e sim o desejo, o plano, de tornar as coisas unânimes. Isso é pregar a burrice.
Um parênteses: no jogo entre a lógica e a sensatez contra a burrice e a incoerência, é mais fácil torcer pelo segundo time. Eu sou um sujeito cheio de dúvidas. Muitas. Minha cabeça ferve pensando nas possibilidades, nas consequências de ações mínimas que poderia tomar. Às vezes, também sou impulsivo, claro. É mais fácil. Não existem dois lados. Opções nem tempo. Não há certeza na razão, apenas na impulsividade. Fecha parênteses.
E eu me assusto quando a burrice entra em campo. Dia desses foi no Pacaembu, quando o Bono Vox do U2 disse a palavra Argentina no show da banda no Brasil, ouviu vaias. Um urro de seres acéfalos. Depois não querem ser chamados de macacos. Se não fosse pela lógica de que os dois países tem mais semelhanças do que diferenças, me espanta mais ainda a incoerência com a mensagem do cultuado vocalista irlandês, que durante todo o tempo, pregou/cantou igualdade - continuando a série originada pelo longa-metragem chamado John Lennon. Ele se espantou e eu me envergonhei - quer dizer, também guardo algum sinal de coletividade.
Nunca me deram uma boa razão para odiar os argentinos. Eu pessoalmente nunca convivi com um argentino. Nenhum deles nunca me fez mal. Ôpa, mas você vai me lembrar do futebol! Nele, somos rivais. Se for por isso então, a coletividade que me resta se envergonha mais ainda. Se o principal perrengue entre Brasil e Argentina se limita ao futebol, celebro aqui a rivalidade mais imbecil do mundo. Todas são. Mas vejam, a nossa ganha!
E entra a voz do narrador da rede Globo: "mais uma vez, os brasileiros unidos para manter a rivalidade mais imbecil do mundo". Dá-lhe Brasil.

Escrito por Pablo Alcântara às 09h30
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Sábado , 04 de Fevereiro de 2006

A noite em que aprendi o que era karma

Continuo a saga pelos corredores da minha mente, cheios de portas fechadas e alguns tapetes escorregadios. Tudo bem, muitas vezes nem sei o que quero, o que penso. Nem sei mesmo se estou pensando. Às vezes pego uma inércia e o pensamento vai longe. Mas não é sempre que solto o cabresto. Provo agora que tenho controle sobre minha cabeça. Em situações difíceis, principalmente. Me lembro da viagem com o bêbado. Essa eu duvido que monge zen-busdista tivesse o auto-controle que tive.
Eu ia pegar um ônibus pra Uberlândia, ver minha mãe e meu pai. Escolhi viajar à noite porque dava pra dormir no caminho, e quando me desse conta já tinha chegado. Na porta de entrada do ônibus, um casal conversava com um sujeito. Pela sinuosidade da conversa, notei que o sujeito tava bêbado.
- "Arh, que gracinha o menininho de vocês!", balbuciou o pé de cana.
- "É, é..., respondeu o suposto pai de um travesseiro.

Daí já pensei, "vai dar merda". Consagrando a falta de sorte como companheira desses momentos, sugeri comigo mesmo: "só falta esse bafo de pinga sentar ao meu lado". Conferida a passagem, me alojei na minha poltrona e abri a janela. Gosto de sentar na janela porque eu posso ter o controle da intensidade de vento que entra. Assim, consequentemente, controlo a temperatura pelo menos em volta de mim (mais tarde teria controlar alguma coisa dentro de mim).
Felicidade e alívio ao perceber uma garotinha de uns 10 anos sentando ao meu lado. Melhor do que o melhor. Desse jeito eu podia até me espalhar.  
Vamos seguindo, diesel queimando e asfalto ficando para trás. Após alguns quilometros já me afundava em devaneios de sono. Com os olhos fechados e fone no ouvido, me sentia bem. Até que fui interrompido por uma abrupta sensação de que alguém estava sobre mim. Abro rápido os olhos e vejo o bêbado fechando a minha janela. 
Não é póssível. Ele estava sentado na poltrona do outro lado, por que se intrometeu com meu ventinho? Tudo bem, deixa quieto. Passa um tempo, abro de novo a janela, pouco. Nessa hora a falta de sorte conseguiu entrar. Danada. Alguém ali na estrada deve ter se livrado de um pneu furado.
Acordo dessa vez e sem ouvir nada, só vejo a gênese do meu destino de sofredor. O bêbado trocava de lugar com a garotinha. Não passou um minuto o fedido já roncava. Sem controle nenhum, começou a cair em cima de mim, dos meus ombros. Olhei pros lados, procurei outro lugar. Nenhum vazio. Empurrei-o. Feito um João Bobo ele ia e votlava. Empurrei de novo. Voltava.
A agressividade vem á tona quando não sabemos o que fazer. Quando não há saída. Muito menos uma racional. Deferi cotoveladas fortíssimas no sujeito. Até aumentava de intensidade. E nada. Ele só resmungava.
Será que ele fazia por querer? Queria me sacanear por ter deixado ir vento na garotinha? Sei lá! Só sabia que aquilo ali cheirava a álcool e castigo, sofrimento. Talvez karma?
Desculpem o trocadilho infâme. Mas por falar em karma, foi isso, na língua do Chico Bento, o que tive. Calma. Me afundei na minha poltrona, aumentei o volume do walkman e me fechei em uma cápsula pabliana. O mundo nunca foi tão pequeno. Cabia na circunferência exata da minha individualidade. É óbvio, fiz isso depois de pensar em vãs alternativas, como deitar no chão do ônibus.
Mas cheguei. Eu, minha mente e a capacidade de controlar a situação. Em chão mineiro, aprendi o significado sublime do karma.


Escrito por Pablo Alcântara às 11h48
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