O Folhetim

Quinta-feira , 20 de Dezembro de 2007

Cores indefinidas

 

A mãe tinha um sofá sem cor definida. Não era azul, amarelo, verde ou vermelho. Não era branco, nem preto. Adjetivar ou nomear aquela cor fica por conta de quem quiser. Para mim, era uma cor indefinida. Roxo, lilás, vinho. Cada um canta no tom que pode. Enxerga o tom que quer. E ainda existem os daltônicos. Era uma cor usada em determinada época no final dos anos 60 e início dos 70. Chega. A cor aqui nem importa. Para ele não importava. O cheiro sim. A primeira vez foi com uma amiga da família. Ela era um salto grosso, quadrado. Vestido vermelho, blusas xadrezas. Ela era isso. E ela era um perfume forte e doce. Para as crianças as pessoas são representadas assim. As pessoas são coisas. Quando escuto relatos dos adultos, percebo que as pessoas da infância se tornaram borrões. Manchas. E sabemos que manchas não são facéis de serem apagadas. Às vezes nunca são apagadas. Ele não sabe ou não lembra o motivo. Quando a mulher salto grosso se levantou e foi embora, ele cheirou o sofá. Cheirou a parte onde ela havia sentado. Ele não sabe o motivo. Ele soltou o brinquedo no chão, se levantou e, antes ainda que a espuma, o recheio daquele couro sem cor inflasse de volta ao tamanho normal, cheirou. Ninguém viu. Não houve traumas.

Depois de todos os meus anos de estudo e de muitos relatos e histórias ouvidas, sei que não existem transtornos. Existem desejos. Realizar os desejos pode ser tudo o que sobra. A sobra que completa o mundo de muitos miseráveis. Desde pequenos escutam que é preciso ser feliz. Desejos diários cumpridos trazem uma boa dose de felicidade mesmo para os escrotos, sujos, maníacos e marginais de toda espécie. Mas realizar seus próprios desejos traz mais felicidade para os medíocres. Os comuns. Eles precisam disso mais do que qualquer um porque não se suportam. E vivemos em um mundo de mediocridade, não vivemos?   

Um dia ele precisou cheirar a cadeira da colega de trabalho. Seus dias foram assim, sua vida foi assim. A cadeira da professora, o sofá do sogro e seu cheiro de sabonete barato. Todos foram cheirados. Sem querer diminuir o ato, faço questão de explicar um detalhe. Apenas um detalhe entre os vários que compõem a telha de sutilezas, que tece uma mania tão singela - convenhamos, é singela - e singular. Cheirar carecia de ser ainda quente. Carecia da temperatura corporal do cheirado. Da brisa quente que permanece margeando em 3 a 4 centímetros de distância do assento. O calor fica ali por pouco tempo. Por isso, a ação tinha de ser rápida. Um golpe de Bruce Lee. Uma arma sacada de John Wayne. Uma fungada do nosso amigo. Rápidos e certeiros. Coisa de mamífero treinado. Mas registre! Rápido na movimentação, porém duradouro ao sorver. Quando enterrado de cabeça no banco, sofá, cadeira, quina de mesa ou qualquer outro lugar em que o desejo queria a fungada, a inalação deveria ser ato consumado. Sem interrupções. É como beber vinho. Quem sabe, não bebe, degusta. Ele degustava os cheiros corporais que as nádegas deixavam. Ele media a temperatura. Ele olhava as marcas deixadas. Olhava a aura que pairava. Ele via a alma daquele espectro. Ele sentia o passado ali. Ele o trazia de volta, o momento em que o indivíduo ficou sentado voltava. Ele brincava com o tempo. Ele era um expert. Um mestre. 

Um dia ele precisou cheirar a cadeira da colega de trabalho. Ninguém viu. Ele não sabia dizer se importava que os outros soubessem. Se envergonhava, era certo. Como todos os medíocres, também carrega a culpa por se permitir realizar o desejo. A culpa por buscar a felicidade que tanto falavam. Essa é basicamente a diferença entre eles e os miseráveis e escrotos, mendigos e bêbados perdidos. Os medíocres sentem culpa. Os outros se esbaldam com a condolência da falta de vergonha. São mais livres neste sentido. Para sujeitos como o nosso cheirador, com o passar dos anos, a realização do desejo é êxtase e auto-flagelação. Euforia e depressão. No dia em que cheirou a cadeira da colega de trabalho se sentiu bem, mas chegou em casa e se arrependeu, chorou e sentiu vergonah de ser quem ele era. Chegou a pensar se iria pro inferno. Quando ele cheirou a cadeira da colega de trabalho, sorveu o cheiro, mediu a temperatura, acariciou o tecido da cadeira com as bochechas, como às vezes fazia quando havia algo mais pela dona - sempre mulheres - da 'sentada'. Paixão, desejo, amor. Seja lá o que for. Esses sentimentos são como cores indefinidas.

Dr. Raul Bukowski, filósofo visceral e gastroenterologista. 


Escrito por Pablo Alcântara às 17h57
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