O Folhetim

Terça-feira , 22 de Janeiro de 2008

Elucubrações do Seu Totonho, um aposentado

"Às vezes eu fico olhando o povo passar correndo. Todo dia no comecinho da tarde passeio aqui no bairro. Isso é pouco depois do sono depois do almoço. Tem uma pracinha aqui perto, uns cinco quarteirões da minha casa e quando eu estou mais animado vou até lá. É perfeito, sabe? É mais longe, mas quando eu chego lá, posso sentar e descansar. Fico vendo a andança do povo. E o povo anda rápido viu. A praça fica em um canto da cidade que começa o movimento. Meu bairro é quieto, tranqüilo, e essa praça fica na beirada, na divisa com as ruas mais cheias de carro e gente. Eu fico imaginando o que cada um que passa está indo fazer. Eles estão indo é pro Centro, a maioria. São os afazeres de cada um. Tem o rapaz recém-casado que agora trabalha dobrado, tem a mulher que saiu de um emprego e já está indo para a casa da outra patroa arrumar tudo, tem também aquela mulher mais velha que está indo acertar umas coisas no banco, umas coisas que ela não entende direito, não tinha antes, e está preocupada só por isso. Tem uma época antes da velhice pura que a gente tem vergonha de não saber as coisas, de perguntar. É uma época que nós ainda não somos velhos, é um quase velho. Pra mim, é pior que ser velho tal qual eu sou agora. Todo mundo entende se eu não sei pegar o café da máquina. Veja que esses dias isto me aconteceu. Tem que enfiar moeda, pegar copo de plástico em um compartimento pregado na parede, uns botões. Eu não tinha nem idéia. Mas eu aprendo, antes, peço ajuda. Sorrio, eles sorriem pra mim. Agradeço. Eles gostam. Da próxima vez já faço sozinho. Se não fizer, também não é vergonha. Eu sou velho mesmo. Mas quando nós estamos naquela idade antes do parar de vez, não saber fazer as coisas novas e modernas é vergonha. Porque aí vão dizer: ficou velho. A gente não quer ficar velho. Ser idoso não é ruim, ruim é o ficar. E olha só esse povo correndo pra encontrar os anos lá na frente." 


Escrito por Pablo Alcântara às 15h07
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Sexta-feira , 11 de Janeiro de 2008

A queda

A mesa do computador, a cadeira, a tela, eu. Eu, esse amontoado de pela branca, de ossos, carne e algum tecido adiposo. Esse amontoado emoldurado (que tenta fazer aliterações e faz rima) em uma estrutura de 1,85 de comprimento. Quase um trambolho. As duas pernas, os joelhos e o pé, servem para nos manter na vertical. Às vezes falham, como hoje. Levei um tombaço. Caí de maduro, de bunda.

A mesa do computador, a cadeira, a tela, eu. Eu, absorto em uma leitura, não encarava mais a tela. Estava de lado. Lia uma revista sobre tecnologia, computação, softwares. Desligado do mundo, quase babando. Concentração voltada para a leitura. De repente meu gerenciador de tarefas mental dispõe 2% de uso do CPU para um som. 5% de uso do CPU e já identifico a perturbação causada pelo som. 6% e já noto que um telefone na mesa atrás de mim não pára de tocar. 10% de CPU usado pra identificar esse som e atrapalhar a leitura. Chega! Resolvo atender.

A mesa do computador, a cadeira, a tela, eles. Eles, colegas de trabalho, provavelmente não em trabalho. Era hora de almoço. Momento de ler os emails, verificar os anexos, rir das piadas, ler notícias sobre a Britney Spears em mais um surto ou conversar no MSN. Atividade interrompida. Eles se surpreendem. Mas o que é aquilo?!

A mesa do computador, a cadeira, a tela, eles. Eles entregues às suas tarefas. Um som. Um estrondo sem definição. Um barulho identificado pela visão. Um sujeito caído no chão. Sentado de bunda. Em uma posição que normalmente ninguém fica. Ninguém do nada estatela no chão e fica lá. Ele caiu. Caiu de maduro.

Levanto. Atendo ao telefone ininterrupto. Converso sem saber direito o que falava. Alguém perguntando por outra pessoa. Digo que não está. Posso anotar o recado. Sou levemente educado, até.

Desligo. Escuto cometários. "Isso é que dá em beber e vir trabalhar". "Achou o que tava procurando?" "hahaha".

Quando você cai não sabe se ri, sente dor, levanta rápido ou fica deitado. Dessa vez levantei rápido. Mas poderia ter ficado lá, me esticar no chão e rir do desatino, do destino (aliterações). Engraçado eu sempre acho. Eu não costumo rir quando as pessoas caem na minha frente. Só quando eu caio.

A mesa do computador, a cadeira, a tela, eu. Eu volto sorrindo e sento. Termino de ler a revista como se alguma coisa tivesse acontecido. Mal termino. No fundo acho mesmo engraçado. Lembro da cena e caio, dessa vez, em uma risada muda. Mas sei também que se não tivesse soltado o corpo teria torcido o joelho esquerdo de novo. Sempre ele. Bichado. De alguma maneira aprendi a cair. A queda pra mim é o pressentimento da quebra. Da lesão. Enquanto eles voltam às suas tarefas, me lembro de um provérbio chinês, taoísta: o bêbado não se machuca porque ele não se opõe à queda.


Escrito por Pablo Alcântara às 07h50
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Quinta-feira , 03 de Janeiro de 2008

Perder é ganhar

Há mais de um mês eu jogo a mesma cartela na Lotofácil. Não ganhei nem um real. Eu adotei esse jogo porque ele dá a ilusão de que a gente ganha alguma coisa. Era costume eu ganhar 2 reais. Dinheiro que era reinvestido em outras duas cartelas. Dinheiro fruto da derrota. Perdia a bolada, mas ganhava um mísero trocado. Mas nesse último mês nem 11 pontos eu fiz. Tudo bem, às vezes as derrotas vem em série. Parece imbecil, mas é por isso mesmo que eu tenho jogado a mesma cartela. A teoria é o inverso de um dos ditados futebolísticos mais repetidos, aquele do "em time que está ganhando não se mexe". Eu não mexo justamente porque não ganho. Pense comigo. Se nenhum dos números escolhidos por mim é sorteado, é porque vai chegar o dia em que todos eles serão sorteados. Todos. Quinze dos quinze números que escolhi. Na minha lógica perturbada, quanto mais eu perco, mais aumentam minhas chances. Amanhã, quando eu conferir a jogatina pelo site da Caixa, dois sentimentos são possíveis: felicidade ou esperança. 

Eu até podia tentar forçar uma barra aqui e trocar um ou dois números. Especialistas em auto-ajuda e gurus pregam que é preciso arriscar. Até no cinema é assim. Já vi isso na Sessão da tarde. Há poucos minutos do fim do jogo, com o carimbo de "loser" pronto pra bater na testa, técnicos de beisebol, basquete ou futebol americano olham para o banco e sacam de lá o nerd, o magricela escurraçado. O sujeito em um lance de superação vai lá e faz o gol, o ponto, a cesta. É a glória, filha do ímpeto.

Eu gosto da tradição. A tradição, ela mesma que é vastamente esculhambada por críticos de arte. A aposta é o novo. O risco. Mas na maior parte das vezes, depois de algum tempo, quem sempre é lembrada é a arte tradicional. Seja ela música, pintura ou artes plásticas. Fazer sempre a mesma coisa. Como um monjolo a triturar a mandioca.   

Não dá. Nem consigo. Não vou arriscar outros números. Sou tradicionalista demais pra isso. Não arrisco. Fico com minhas coisas. Não mudo meu time no intervalo. Na gastronomia, repito os mesmos lugares. Nestes mesmos lugares repito os mesmos pratos, sucos, combinações e até o momento de ir ao banheiro é o mesmo. Sempre.

Posso até perder a chance de experimentar novidades. Mas na real, nesse caso, perder é ganhar.

Pronto. Consegui traçar um paralelo entre a teoria Lotofacilesca e a vida. Perder é ganhar. A idéia é mais cabível em termos existencialistas do que eu imaginava. Na loteria da existência adotar esse jogo dá a ilusão de que a gente ganha sempre alguma coisa. Vá lá, perder é ganhar, nem que sejam alguns trocados.


Escrito por Pablo Alcântara às 18h00
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