O Folhetim

Quinta-feira , 06 de Março de 2008

É tudo pose?

Dia desses assistindo à MTV vi um vj perguntando ao Arnaldo Antunes se ele conhecia uma menina chamada Malu Magalhães, que estava no "olho do hype" e que fazia um som "folk". Eu pensei “poxa, uma menina, olha só”. Aí entrou um VT sobre a garota. Pra mim, uma garota normal, cantando músicas normais que um adolescente qualquer que ganha um violão aprende. Depois de um tempo, o adolescente começa a arriscar e faz uma musiquinhas. Isso rola nos lares de Araguari a Nova Iorque desde os tempos do ronca. Pra mim, não é novo. Não vai mudar o mundo. O fato é que ela fez uma pagina no MySpace e “bombou”, “hypou”.

Em outra hora, me aparece uma vj nova, uma garota de cabelos vermelhos, e fico sabendo que ela ficou conhecida e também 'hypou' colocando fotos pessoais na internet, fazendo poses e colocando roupas fashion. Em seu programa da MTV, a garota de cabelos vermelhos entrevistava uma loira com um nome que parecia com algo como “lala grash”, “lala green”, não me lembro. A loira foi apresentada como uma artista plástica. Mas também era modelo, hosstes (se escreve assim?) e dj. No meio da conversa, ela dizia com naturalidade que não pintava nada há cinco anos.

Eu não quero generalizar nada, mas isso tudo é um panorama que me incomoda. Bem, no primeiro caso, vai ficando cada vez mais nítido o fato de que as pessoas perderam a noção do que é realmente bom mesmo e do que é só normal. Isso na minha terra – e na sua também - se chama mediocrização. O segundo caso é um complemento do primeiro. Hoje, as pessoas não são algo, elas são algumas coisas. Fazem de tudo. Acham que fazem de tudo. E qualquer coisa é boa. Dj, escritor, modelo, ator, cantor, músico, artista plástico, BBB e ainda sobra tempo de ser apresentador de programa de TV. A técnica acabou. A crítica, então, não serve pra nada, porque as pessoas não se importam mais com a crítica.

Antes, o 'faça você mesmo' era uma alternativa. Uma saída para quem não conseguia se estabelecer no “establishment”. Em muitos casos, o que era feito nesse submundo mudava o mundo. Agora, a alternativa ficou maçante. Os periféricos estão virando o centrão. Parece que nada mais vai mudar o mundo. No fundo não há surpresas. Romper com parâmetros. Em alguns casos, o retrógrado refigurado é o novo. Não existe mais conteúdo. O valor intrínseco, talhado pela técnica e inspiração foram subjugados pela imagem, o design, a estampa. Você está sendo filmado e, principalmente, se filma, fotografa. Durante o tempo todo o sujeito se olha de fora na lente de LCD. Não olha pra dentro. E fica vazio. A criação é de fora pra fora. É tudo pose.


Escrito por Pablo Alcântara às 14h59
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